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Diretor da Prevent Senior nega omissão de mortes, e senadores o acusam de mentir para CPI da Covid; acompanhe ao vivo

Relator, Renan Calheiros, anuncia que Pedro Benedito Batista Júnior passa à condição de investigado pela comissão

Depoimento do diretor-executivo da operadora de saúde Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, na CPI da Pandemia. Foto: Pablo Jacob / Pablo Jacob

 

André de Souza
O GLOBO
BRASÍLIA — Em depoimento nesta quarta-feira à CPI da Covid, o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, negou que a empresa tenha omitido mortes por covid de pacientes que tomaram medicamentos sem comprovação científica contra a doença, como a cloroquina. Apesar da negativa, o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), anunciou que o executivo passou de testemunha à condição de investigado, por suspeita de mentir à CPI.

Para senadores que integram a comissão e que são médicos, como Otto Alencar (PSD-BA) e Humberto Costa (PT-PE), o executivo foi desonesto e omitiu mortes por Covid, após o tratamento com remédios sem eficácia. Os senadores se baseiam nas denúncias feitas por meio de um dossiê, de médicos e ex-funcionários da Prevent, que demonstra que os prontuários da Prevent Senior teriam sido adulterados para não exibir mortes por Covid-19.

Em seu depoimento, Pedro Benedito acusou dois médicos, ex-funcionários da empresa, de manipularem dados de uma planilha interna da Prevent Senior para tentar prejudicar a operadora de plano de saúde. Segundo ele, os óbitos ocorreram depois da elaboração do relatório sobre o uso do remédio. Por isso, não puderam ser computados.

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Na comissão, foi apresentada uma mensagem sobre como os pacientes eram classificados ao serem internados, e o diretor da Prevent Senior explicou que em vários casos a CID, ou seja, a classificação da doença., era alterada.

— Todos os pacientes com suspeita ou confirmação de covid, na necessidade de isolamento, quando entravam no hospital, recebiam o B34.2, que é a CID de covid. E, após 14 dias ou 21 dias para quem estava em UTI, se esses pacientes já tinham passado dessa data, a CID podia ser modificada, porque os pacientes não representavam mais risco para a população do hospital — afirmou Batista Júnior.

Os senadores reagiram.

— Inacreditável! O senhor não tem condição de ser médico com a desonestidade que fez agora. Mudar o código de uma doença é crime — afirmou Otto Alencar, que é médico.

— Eles consideram que, depois de 14 dias, o paciente não tem mais covid, ou que depois de 21 dias não tem mais covid. Esses pacientes morreram de quê? De complicações de covid. É covid. É uma fraude — disse Humberto Costa, que também é médico.

— Isso é de uma gravidade sem precedente.

Otto Alencar continua:

— Não fala a verdade, omite as coisas, não quer falar o que aconteceu no seu hospital por falta de sensibilidade.

O senador lembrou ainda que a maiorias das pessoas que pega Covid-19 não precisa ir ao hospital porque não apresentam sintomas ou são casos leves. Em seguida, perguntou a Pedro Benedito se cloroquina e azitromicina resolvem o problema dos casos graves.

— Não resolvem — reconheceu Pedro Benedito.

Otto afirmou então haver dados de pacientes graves que foram medicados com tais remédios.

Pedro Benedito disse ainda não acreditar em tratamento preventivo. Perguntado se acredita no tratamento precoce, que é comprovadamente ineficaz, foi evasivo.

O executivo disse que a empresa enviava os remédios prescritos pelos médicos, o que podia variar e paciente para paciente, mas não havia um “kit covid”. Ele afirmou também que a Prevent Senior foi promotora da vacinação da Covid-19 quando ela começou.

Questionado por Renan, ele negou ter relação com o governo federal ou o gabinete paralelo, grupo de assessoramento ao presidente que defendia o tratamento precoce ineficaz. Uma das pessoas apontadas como integrantes do gabinete paralelo é a médica NIse Yamaguchi, que tratou pacientes da Prevent Senior.

— Eu gostaria de elevar o senhor Pedro Benedito Batista Junior à condição de investigado. E adicionalmente mandar todas as informações colhidas aqui na CPI para a procuradoria de São Paulo, por que esses fatos aconteceram lá.

Manipulação de dados

Batista Júnior disse que os termos de consentimento das famílias dos pacientes estão em posse da empresa. Ele afirmou que profissionais já desligados da empresa adulteraram planilha interna da Prevent Senior para dar a ideia de fraude.

— Eles invadiram o sistema, acessaram a planilha e, mesmo não tendo mais reponsabilidade sobre esse processo, adulteraram a planilha e encaminharam a planilha para a advogada — disse o diretor afirmando que houve adulteração também em mensagens da empresa.

Leia: ‘Gabinete paralelo’ tinha ligação com Prevent Senior, diz documento

Ele negou também a existência de pressão sobre os médicos, que tinham autonomia para prescrever os remédios. O executivo disse ainda que a Prevent Senior tomou medidas para evitar o contágio, como testagem do profissionais, afastamento de quem estava doente, e um gasto de mais de 80 milhões equipamentos de proteção individual. Segundo ele, a regularidade da atuação da Prevent Senior foi constatada pelo Ministério Público do Trabalho.

Batista Júnior reconheceu que não existe medicação milagrosa:

— Eu tenho uma visão muito clara, depois de tantos meses, que a intervenção do paciente, o teste sendo realizado com mais eficácia, o isolamento e a utilização de tudo que hoje é sabido pode sim amenizar a evolução da doença. E claro a autonomia do paciente tem que ser preservada para que ele possa de certa maneira indicar para cada um dos seus pacientes a melhor medida. A minha observação de tratamento ou não precoce é que não existe nenhuma medicação milagrosa.

O relator Renan Calheiros (MDB-AL) perguntou se o médico Anthony Wong, defensor da cloroquina, morreu de Covid-19, mas o diretor da Prevent disse que não poderia passar informações sobre um paciente. Foi exibido então um áudio em que o executivo estaria pressionando um médico a voltar atrás numa informação repassada à imprensa.

“Você tem muito a perder. É sua família que vai ser exposta. Isso não é ameaça, é conselho de quem ficou com você por sete, oito anos” disse Pedro Benedito na gravação. O outro médico fala então a morte de Anthony Wong. “Não foi de covid?”, perguntou. “Não”, respondeu Batista Júnior. “E aquilo no prontuário dele?” — questionou o outro médico. “Ele entrou por causa de um sangramento gástrico” — afirmou no áudio o diretor da Prevent.

Pacientes exigiram cloroquina

À CPI, o executivo disse que o outro médico subtraiu dados de um paciente e o caso dele foi encaminhado para o Conselho Regional de Medicina (CRM) para investigação.

O executivo também disse que, no começo da pandemia, havia pacientes exigindo a prescrição de cloroquina, e que houve termo de livre consentimento em todos os casos. Ele negou que tenha ocorrido testagem da cloroquina. Segundo Pedro Benedito, houve apenas o respeito à autonomia médica para poder prescrever o medicamento. Contou que não só a cloroquina foi usada, mas também outros remédios, como anti-inflamatórios e, anticoagulantes.

No começo da pandemia, a cloroquina foi uma das apostas contra a doença. Estudos posteriores mostraram que o remédio não tinha eficácia para o tratamento a Covid-19.

A Prevent Sênior é acusada de ter pressionado médicos conveniados para que  prescrevessem medicamentos do chamado tratamento precoce para a Covid-19, cuja ineficácia já foi comprovada. A empresa é suspeita de ter ocultado mortes em estudos sobre a cloroquina, além de ter sido denunciada por pacientes da operadora, que teriam sido assediados para aceitar o tratamento precoce.

Batista Júnior também foi acusado por um médico conveniado da operadora, que relatou que o executivo ameaçou a ele e a sua família após ter denunciado as práticas ilegais na Prevent Sênior. À Polícia Civil de São Paulo, Walter Correa de Souza Melo relatou que o diretor teria dito que o médico estaria “expondo sua filha e sua família”, caso insistisse em levar o caso adiante, o que foi interpretado por ele como uma ameaça. Segundo Melo, o executivo também proferiu frases como: “Você tá achando que é espertão?” e “Walter, olha o que você fez com a sua família!”.

Informações sobre Covaxin

Antes do depoimento do representante da Prevent Senior, a CPI aprovou um requerimento para que o corregedor-geral da União, Gilberto Waller Junior, preste informações sobre a investigação preliminar sumária que levou à abertura de processos administrativos de responsabilização contra o laboratório indiano Bharat Biotech, que desenvolveu a vacina Covaxin,  a Precisa Medicamentos, a empresa brasileira parceira no negócio. A Corregedoria-Geral da União é ligada à Controladoria-Geral da União (CGU).

Em 29 de julho de 2021, o ministro da CGU, Wagner do Rosário, apresentou o resultado de uma auditoria em que apontou possível irregularidade na falsificação de documentos apresentados pela Precisa ao Ministério da Saúde, mas não foram constatadas outras irregularidades. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), porém, escreveu em seu requerimento que a Corregedoria do órgão apontou sim fraude.

“Assim, após Investigação Preliminar Sumária (IPS), o Corregedor-Geral da União, Gilberto Waller Júnior, instaurou um PAR (processo administrativo de responsabilização) contra a Precisa Medicamentos. O procedimento aponta fraude e “comportamento inidôneo” por parte da empresa. Um segundo processo foi aberto, no mesmo dia, para investigar irregularidades praticadas pela Bharat Biotech”, diz trecho do requerimento aprovado pela CPI.

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), garantiu a Pedro Benedito o direito de não responder perguntas que possam incriminá-lo, mas manteve a obrigação do executivo de comparecer ao depoimento.

Convocação de Queiroga

No início da sessão, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), disse que não pensa em levar o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, novamente à CPI. Ele já prestou depoimento duas vezes, mas a cúpula da CPI queria ouvi-lo mais uma vez depois que o Ministério da Saúde se posicionou contra a vacinação de adolescentes. Queiroga, porém, está com Covid-19.

— A gente deseja que ele se restabeleça. Seria muita falta de respeito com o ser humano pensar trazê-lo, hoje ou daqui a 14 dias — disse Omar.

O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), discordou.

— É importante ouvi-lo pelo absurdo — afirmou Renan, acrescentando: — Não podemos encerrar antes de ouvir o ministro Queiroga.

O senador Otto Alencar (PSD-BA) criticou a comitiva do governo brasileiro que foi a Nova York em razão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

— Os negacionistas estão em Nova York em quarentena — disse Otto.

Reação à ofensa machista

Omar também defendeu a senadora Simone Tebet (MDB-MS). Na sessão de terça-feira, quando a CPI ouvia o ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Simone o criticou duramente, e Rosário reagiu, chamando-a de descontrolada. Com a confusão, a sessão foi suspensa. Alguns senadores disseram que o ministro estava sendo machista. Em entrevista antes da sessão, Simone comentou o episódio:

— Não é mimimi, não é vitimização. Não foi uma palavra qualquer. Não foi um ataque à minha atividade como profissional. A senhora é incompetente, isso é aceitável. A senhora não está dizendo a verdade, isso é aceitável. Quando me adjetiva na minha condição de ser como mulher, a senhora é descontrolada, é exaltada, é histérica, isso é algo que é claramente uma violência política contra a mulher. Todo momento em que a mulher quer espaço de poder, no jornalismo, como servidora pública, como profissional liberal, é estrutural, é inconsciente.

O senador Eduardo Girão (Podemos-CE), autor do requerimento de convocação de Rosário, disse que o ministro errou, mas também reclamou que, durante as sessões da comissão, os depoentes estão sendo tratados de forma agressiva e desrespeitosa.

ziz criticou o senador Marcos Rogério (DEM-RO), que, na terça-feira, após a confusão na sessão, disse que havia um circo.

— Eles criam uma quizumba, criam uma palhaçada, é um circo. É um circo. Está desde o começo provocando o ministro, fazendo comparação com personagens, xingando — disse Marcos Rogério na terça.

— Se fosse eu ser atacado, tudo bem, mas uma senadora não é um circo. Não pode ser um circo — afirmou Omar nesta quarta.

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES) criticou o governo relembrando falas passadas do presidente Jair Bolsonaro que revelam preconceito.

— O que  nós  vimos ontem é uma digital desse governo federal. Ele chegou ao ponto de falar que tem cinco filhos, quatro homens, e na quinta fraquejou e veio uma mulher. É o nível do presidente que temos. Chegou a afirmar que não contrataria homens e mulheres com o mesmo salário, e que mulheres devem ganhar menos porque engravidam. Sexista. Homofóbico. Chegou a afirmar que, se tiver um vizinho gay, seu apartamento desvaloriza. Afirma também que o índio está cada vez mais parecido com a gente, se humanizando, e não pode ficar retido numa reserva como se fosse um zoológico. Racista. Racista! Chegou a dizer que não corria o risco de ter uma nora negra porque os filhos foram bem educados. Esse é o nível do presidente que nós temos. E o que vimos aqui foi uma reprodução desse governo sexista, preconceituoso, misógino, homofóbico, racista, e que eu tenho fé em Deus que vai passar — disse Contarato.

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), também atacou o governo e defendeu a reconvocação de Queiroga. A senadora Leila Barros (Cidadania-DF), que na terça-feira saiu de seu gabinete e foi à sala da CPI, onde defendeu Simone Tebet (MDB-MS) e rebateu Marcos Rogério (DEM-RO), agradeceu o apoio que recebeu a disse que não aceitará ataques às mulheres. O governista Luis Carlos Heinze (PP-RS) discordou do tom do ministro da CGU, mas afirmou também que ele foi atacado e chamado de mentiroso na sessão de terça.

 

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